O pitoresco charme de One Punch Man

Publicado em 26/03/2019 16:13
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Em tempos de dominação quase que exclusiva nos blockbusters de enfadonhos e olimpianos heróis contrapostos a unidimensionais vilões, talvez exista uma salvação…

Apesar de – ou por consequência de – ser capaz de derrotar qualquer inimigo com apenas um soco, o herói Saitama encontra-se profundamente entediado. Eis a história de One Punch Man, mangá criado pelo artista One que se tornou um estrondoso sucesso.

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Às vésperas da estreia da segunda temporada do anime, que chega em abril de 2019, vale averiguar. Afinal, o que faz essa história ser tão divertida e relevante para a cultura pop nesses tempos?

Em suma, usemos a “fórmula Marvel” de que tanto se fala e que já temos martelada em nossa cabeça (Martelada por sua infinita repetição, vale frisar). Não seria um despropósito dizer que quase tudo se resume em “Tem um ser malvado lá! Vamos bater nele!”… Ponto. Nesse nível de lorpice 99% do tempo (à exceção de Pantera Negra, mas que também tem seus inúmeros problemas narrativos).

Para meditar sobre mais um exemplo, no caso de Capitão América: Guerra Civil, a chance de gerar questionamentos relevantes foi absolutamente desperdiçada. Afinal, heróis têm mais direitos ou mais deveres? O estado realmente tem a necessidade/dever de regulamentá-los? Quem os condecora ou pune caso necessário? Nesse filme, todos esses temas foram no máximo explorados superficialmente. E afundaram em meio a um dramalhão cheio de reviravoltas novelescas.

Por mais que a DC seja quem tenha como uma espécie de mote “deuses entre nós”, a Marvel acaba utilizando essa mesma premissa até certo ponto. Principalmente em seus filmes. Conscientemente sem grande aprofundamento, para se tornar mais palatável às gigantescas massas de espectadores, seus heróis representam grandes ideais facilmente identificáveis. Em suma, são quase perfeitos, por mais que um ou outro detalhe na trama acabe tentando (sem demasiado êxito) humanizá-los.

Em contrapartida, em One Punch Man lidamos com heróis humanos. Demasiado humanos, para citar Nietzsche. Com todos os defeitos e a complexidade que essa condição carrega (mesmo que alguns deles não sejam LITERALMENTE humanos). Nesse universo onde heróis são separados por classes de acordo com seu desempenho e têm uma desmedida vaidade que parece presente em quase todos os seus nobres atos, nos aprofundamos em algumas questões essenciais a serem exploradas – especialmente se tratando de universos onde vários heróis existem há tempos: Como eles trabalham/trabalhariam em grupo? Como ficaria a efetividade de seus atos em relação a competição entre eles?

Naquele ideal mundo dos Vingadores, mesmo quando eles se desentendem entre si (falando aqui EXCLUSIVAMENTE no cinema e não nos quadrinhos) tudo se resolve em um drama novelesco quando uma nova e maior ameaça se apresenta. Imaginamos que, para qualquer um com uma simples noção dramatúrgica (ou de humanidade ), essas interações entre as personagens passem longe de ser críveis. E para alguns, também passam longe de ser interessantes o suficiente para serem assistidas.

Analogamente, o apelo de One Punch Man é justamente jogar com essas fórmulas. Os vilões que querem destruir a terra ou dominá-la “porque sim” seguem presentes. Porém, somos apresentados a essa história pelo ponto de vista do herói mais poderoso do universo. E o que ele quer? “Apenas” um desafio maior e menos entendiante do que derrotar todos os seus oponentes com um único soco.

Antes de mais nada, ele é tratado como fraude. Com um visual jocoso, luvas de cozinha, cabeça raspada e uma cara de profundo e constante tédio, ninguém o leva tão a sério quanto deveria. O mais próximo disso seria, talvez, os Guardiões da Galáxia. Cujo deboche jamais seria capaz de extrapolar as amarras do gênero e do universo em que estão inseridos, como One Punch Man torna possível.

Tentando ao máximo, por mais impossível que seja, não ser casmurro ao criticar essas enfadonhas fórmulas dos filmes/séries de super-herói dominadas por Marvel e DC, é cada vez mais debatida a necessidade de transcendê-las. Até pelo fato de que isso é imprescindível para a própria durabilidade do gênero.

One Punch Man não é apenas uma obra que satiriza e transcende esse gênero, mas é uma obra essencial como auto-crítica do caminho trilhado por esse que é o gênero de entretenimento audiovisual mais popular da atualidade. E quem sabe até um exemplo a ser seguido mais frequentemente…

Sendo o mangá publicado desde 2009 e o anime tendo saído em 2015, nesse período o gênero se transformou consideravelmente. A sombria violência na série Titãs. O drama familiar de Umbrella Academy. O maroto apelo cômico dos Guardiões da Galáxia. A importante guinada politizada de filmes como Mulher-Maravilha e Pantera Negra. E até a complexidade filosófica de Batman: O Cavaleiro das Trevas, tido por muitos como o maior filme do gênero. Todos essas obras têm seus inúmeros méritos, mas não fogem totalmente da sensação de mais do mesmo. Confiando em fórmulas que variam o seu nível de desgaste dependendo do ano em que foram lançadas.

Todavia, One Punch Man também não é uma completa exceção a todas essas regras. Em tons de sátira, a narrativa sabe muito bem o gênero em que está inserida. E gargalha desta circunstância servindo ao mesmo tempo como crítica e tributo. Como homenagem e sátira. Mas ainda assim, como um impagável e divertido entretenimento que pode ser aproveitado tanto por fãs do gênero de super-herói quanto por seus mais impiedosos críticos.

Que venha a segunda temporada! E que ela siga sendo capaz de refletir sobre o gênero que carrega em sua essência.

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