Entenda os motivos que fazem Watchmen da HBO melhor que o filme de Zack Snyder

Publicado em 19/12/2019 20:32
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A primeira e potencialmente única temporada de Watchmen da HBO acabou e é difícil pensar em como poderia ter sido mais gratificante. Damon Lindelof e seus escritores deram o auge de sua resistência criativa a este projeto, recapturando notavelmente o espírito do amado quadrinho e também fazendo algo completamente diferente com ele. Por esse motivo, agora uma década após o lançamento da versão cinematográfica de Zack Snyder, podemos dizer imediatamente que esse Watchman foi mais fiel ao material original.

Por um lado, parece incorreto referir-se a Watchmen de Lindelof como uma adaptação, pois é uma sequência direta dos quadrinhos, ambientada na mesma continuidade (Lindelof chegou a referir sua série como um “remix”). Ainda assim, não deve ser descartado o quão paralelo o programa é com a história em quadrinhos, pois atua como um espelho sombrio da nossa realidade contemporânea, além de ter uma compreensão intrínseca do que fez a narrativa do livro ter peso.

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Watchmen de Zack Snyder

Sendo justo, o principal problema do filme de Zack Snyder era algo que nenhum outro cineasta poderia realmente resolver: a história em quadrinhos não se adapta diretamente a um longa-metragem. As 12 edições aproveitaram ao máximo seu meio ao incorporar uma narrativa lenta que também serviu para a construção estratégica de seu mundo.

Também de importância, cada edição de Watchmen foi incorporada a um texto que ajudou a aprofundar essa realidade alternativa, e como ela se comparou e contrastou com a nossa. Não apenas uma adaptação cinematográfica de Watchmen se sente relegada a omitir esse conteúdo prosaico, mas um tempo de duração de longa-metragem (mesmo aos 163 minutos) não é suficiente para transmitir satisfatoriamente o arco cuidadosamente construído da graphic-novel.

Watchmen de Damon Lindelof

A mídia de Lindelof propõe o inverso, permitindo a gravidade e o momento que existiam nos quadrinhos. Nos nove episódios do programa, Watchmen é totalmente imprevisível e emocionante e expressa seu comentário social por caminhos semelhantes aos do livro.

Também através de uma forte construção do mundo, Lindelof permite que os espectadores olhem para um mundo diferente do nosso. Mas, ao mesmo tempo, semelhante o suficiente para conseguir explorar as manchetes atuais. Da tensão racial ao potencial de uma segunda Guerra Civil estadunidense (afinal, apesar de também ser uma questão no Brasil, a série é situada em Tulsa), é um momento muito angustiante para os EUA. E o programa faz alusões de maneiras inteligentes que se combinam com o uso da franquia. Alan Moore claramente pretendia que Watchmen encapsulasse a tensão apocalíptica da Guerra Fria, e esta série faz o mesmo, mas com um zeitgeist mais contemporâneo.

Além disso, essa série até encontrou uma maneira inteligente de incorporar o elemento do material complementar que as HQs também aproveitaram entre as edições. Por meio do site Peteypedia, os fãs podiam ler coleções de bancos de dados da personagem Dale Petey, um agente do FBI com um interesse quase que compulsivo em vigilantes mascarados. As entradas atualizadas semanalmente cobriram tudo, desde criticar uma apresentação sem tato sobre agressão sexual no programa de televisão do universo American Hero Story, apresentar teorias sobre a origem de Lady Trieu e até mapear diferentes gêneros de ficção que veio a ser no mundo Watchmen. Esses artigos tendiam a ser divertidos e estimulados pela inteligência e relevância que os escritos de Moore carregam.

Dr. Manhattan

Muitos também disseram que outra barreira para se fazer um bom filme de Watchmen era simplesmente que os complexos projetos de narrativa dos quadrinhos não podiam funcionar no audiovisual. Essas afirmações especialmente se tratam do Dr. Manhattan, o super-ser onisciente que tinha uma visão não linear do tempo. Isso foi comunicado visualmente através da graphic-novel. Ainda assim, a equipe de Lindelof chegou a encontrar uma maneira de trazer esse trabalho para o cenário televisivo, com um episódio brilhante que deixa a perspectiva do Dr. Manhattan ainda mais clara que a própria HQ.

Incorporando um roteiro bem pensado, com um trabalho fluido de edição e uma direção impecável, o episódio A God Walks Into Abar encontrou maneiras inovadoras de exibir a ótica da personagem, e carregava uma beleza tão etérea que é difícil pensar que mesmo Alan Moore (um detrator vocal das adaptações de seu trabalho) conseguiria criticar. Zack Snyder nem ao menos tentou.

A lula

Por fim, o programa mostra um elemento da história em quadrinhos que o filme removeu: a lula gigante. A edição final dos quadrinhos mostram o plano de Ozymandias para salvar a humanidade: liberar um monstro estilo Cthulu em Manhattan, matando três milhões de pessoas e, finalmente, permitindo que as nações do mundo unissem forças para que pudessem se unir contra uma enigmática ameaça.

Snyder decidiu ficar sem o monstro gigante interdimensional, talvez sentindo que ele parecia datado. Assim o substituiu por uma explosão gigante que dava a entender que havia sido causada pelo Dr. Manhattan. Isto é problemático por duas razões:

  • Dessa maneira, não conseguimos ver a carnificina causada peloo monstro, diminuindo o impacto de Ozymandias cometer um ato indescritível, mesmo que tenha sido através de um cenário que justifique os meios.
  • Além disso, é mais difícil engolir que todas as nações do mundo se uniriam se o Dr. Manhattan fosse considerado o culpado, especialmente porque ele havia servido o governo estadunidense anteriormente.

O programa não apenas devolve a lula ao cânone, mas também tem uma conclusão muito poderosa e inesperada. O último episódio reúne sua miríade de personagens e subtramas, pois mais uma vez o mundo parece estar enfrentando outro evento catastrófico. Alguém poderia pensar que todos os elementos seriam quase impossíveis de manipular. Mas esse programa também é bem-sucedido aqui, terminando com uma nota de esperança.

Enquanto Moore levou sua história a um fim um pouco mais cáustico, Lindelof vê mais chances de progressão, e a enigmática cena final é tanto uma honra para os quadrinhos quanto qualquer outra coisa da série.

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