Maria Angela de Jesus (Fonte: Assessoria Netflix)
Maria Angela de Jesus (Fonte: Assessoria Netflix)

Maria Angela de Jesus, diretora de produções originais da Netflix no Brasil, conversou exclusivamente com o Observatório de Séries, após o serviço de streaming revelar antecipadamente uma recente pesquisa da empresa.

Entenda melhor os dados apresentados, saiba o que isso significa para o futuro do streaming e saiba o que esperar do Tudum Festival, evento da Netflix que acontece entre 25 e 28 de janeiro em São Paulo.

Para conhecer melhor a pesquisa feita pela NetQuest entre 13 e 15 de janeiro, com 1 mil pessoas entre 16 e 25 anos, confira nossa publicação clicando aqui.

Representatividade jovem

Com base na pesquisa da NetQuest, Maria Angela revela que a Netflix pretende falar ainda mais com sua audiência de jovens adultos, buscando representá-la de forma cada vez mais fidedigna:

“A pesquisa na verdade embasa um pouco dos caminhos que a Netflix tem buscado para falar com essa audiência jovem”, revelou Maria Angela. “Eu acho que os jovens tem uma relação muito próxima com a Netflix, a nossa marca fala muito com essa audiência”.

“A gente percebe que esse jovem está em busca de conteúdos e que esse jovem não vinha sendo tão fortemente atendido, no sentido de ter conteúdos que falassem com eles”, esclareceu a diretora. “Então nós buscamos conteúdos que abram esses diálogos, que não sejam tão romantizados. Que sejam mais próximos da realidade de cada um deles”.

“Muitas vezes, quando você fala sobre a temática jovem, a questão social tem menos peso que os conflitos próprios dessa idade”, continuou Maria Angela. “A gente costuma dizer que não importa de onde você vem; os conflitos na juventude são mais ou menos comuns para todos nós. Muda simplesmente a maneira com a qual os vivemos”.

“A gente vê que hoje a gente tem a presença forte dessa audiência que quer buscar conteúdo com o qual se identificam. Um fator importante que consideramos é que eles criem esse engajamento emocional com o conteúdo. Nós tivemos isso com Sintonia e podemos ver nas redes sociais a maneira com a qual (eles) se relacionavam (com a série Original Netflix cirado por Kondzilla)”.

Sintonia

A série nacional Sintonia, Original Netflix, foi um dos maiores sucessos brasileiros do streaming e foi bastante citada na entrevista. Como explica Maria Angela:

“Nós tivemos muita resposta, por exemplo, com Sintonia. De como a série fala com uma audiência jovem, uma audiência forte, e que não se sente representada. Esse é o nosso caminho principal”.

“Quando a gente olha para Sintonia, ela vai para uma periferia de São Paulo ainda pouco retratada quando a gente olha para os conteúdos nacionais. Eu lembro que, quando saíram os primeiros trailers de Sintonia, os comentários de muitos jovens nas redes sociais eram exatamente isso; eu lembro de duas meninas, uma comentando para a outra: ‘Pô, é a gente na balada sábado a noite‘; ‘É a gente‘; ‘É nóis‘. Então você percebe que você tá ampliando seu universo. E trazendo de fato uma audiência que não estava sendo atendida”.

Entrevista completa:

ObS: Vocês buscam também uma melhor representatividade fora da tela? Roteiristas, diretores, produtores…

Maria Angela: Sim, sem dúvida. Na verdade, essa conversa a gente cria justamente trazendo criadores que são conectados, estão vivendo isso de alguma forma ou estão bem próximos disso. Nós temos uma sala de roteiristas bem jovem. Uma sala de roteiristas que a gente brinca que viveu isso ontem (risos). Acho que o importante é entendermos que estamos falando com uma parcela de público que vinha sido historicamente muito mal atendida. Então o que a gente faz é abrir esse escopo e trazê-los para perto. E trazer conteúdos com os quais eles consigam se identificar. Não importa aonde eles estejam. Mas que a gente consiga trazer esses conflitos de forma que seja realista e muito próxima do que eles vivem.

ObS: Pode se dizer que o foco da Netflix é trabalhar nessa faixa de público mais jovem ou vocês também tem planos para angariar um público mais maduro, mais acostumado com outras mídias mais tradicionais?

Maria Angela: O fato de estarmos buscando atender essa faixa mais jovem não significa que vamos nos distanciar de uma audiência mais madura, que é fortemente também presente na nossa plataforma. E na verdade, quando você fala desses conflitos juvenis, você fala também com pessoas mais maduras; você fala também com famílias. Uma mulher ou um homem de 40 anos passaram por várias questões que nós retratamos, seja em Sintonia, seja em Sex Education, seja em The End of the F*****g World. Os conflitos do amadurecimento permanecem com a gente.

“Nós não queremos alienar essa audiência mais madura. Na verdade, muito pelo contrário. Eu, por exemplo, sou uma mulher de 50 anos e meu filho tem 17 (anos). Então quando eu assisto esses conteúdo jovens, além de eu ter passado também por isso, eles estão bem próximos do que o meu filho está vivendo. Em uma sequência de Sex Education, nós vemos uma menina que passar por um momento que muitas meninas passam, muitas mulheres já passaram, que é você estar num ônibus e um homem se aproveitar daquela situação”.

A cena citada por Maria Angela acontece com Aimee Gibbs, personagem vivida pela atriz Aimee Lou Woods. Durante sua ida até o colégio, a garota entra em um ônibus e, durante o percurso, percebe um homem se masturbando ao seu lado. Após pedir para o motorista parar o veículo e descer deste para continua sua jornada a pé, ela ainda descobre que o rapaz ejaculou em sua calça.

“Quando eu vejo aquela cena, eu lembro de coisas que eu vivi. E uma jovem de 17, 18 anos pode estar vivendo isso agora”, continua a diretora. “É nesse sentido que vemos a amplitude desses conteúdos Porque todos nós já passamos por isso, ou se estamos nessa idade de 17, 18 anos, podemos estar vivendo isso”.

ObS: O sucesso de Sex Education no Brasil mostra que realmente essas questões podem ser de fato universais. Mas com exceção de O Escolhido, as séries nacionais acabam se concentrando bastante no sudeste brasileiro. Há planos de explorar outras regiões do país?

Maria Angela: Sim, há planos, sim. Nós buscamos a diversidade. Buscamos trazer realidades que sejam diferentes. Então, temos sim projetos que já estão olhando para outras realidades. É esse nosso foco. Nosso Brasil é muito grande e muito diversificado. Por isso queremos trazer cada vez mais essa diversidade para dentro do nosso conteúdo por um motivo muito simples; além dele (o país) ser extremamente rico em termos de conteúdo, você fala com uma audiência ampla, uma audiência que está presente. Então queremos sim ter projetos fora do eixo Rio-São Paulo. Logo, logo, teremos novidades.

Obs: Um dos dados da pesquisa revela que mais da metade do público já se perguntou “o que o meu personagem favorito faria nessa situação”. Falando em séries nacionais, nós temos séries como 3% e O Mecanismo que abordam mais uma questão política. Nessa questão do diálogo, como que vocês trabalham isso para que isso não seja uma influência ou posição política? Criar essa conversa e não só passar uma posição.

Maria Angela; Eu acho que a gente traz isso com a diversidade de conteúdos. Eu acho que o mais importante é você oferecer conteúdos que sejam diferentes. Eu falo muito de Sintonia porque Sintonia é isso; ele abre uma outra conversa. Ele fala com uma galera que está em um outro demográfico, digamos assim.

“O que a Netflix faz é entretenimento. Nós falamos dos mais diversos assuntos e trazemos esses assuntos para toda a audiência. Não importa se seja audiência jovem ou mais velha. Porque, na verdade, a diversidade de temas é o que te ajuda a formar teu pensamento; que te ajuda a avaliar a realidade que você vive”.

Tudum Festival

Maria Angela ainda explicou um pouco do que esperar do Tudum Festival, evento da Netflix que ocorrerá no Parque Ibirapuera, e que mostra que realmente a empresa está buscando se conectar mais com o público jovem.

“O Tudum, a gente brinca, já pelo nome ‘Tuduuum‘ (risos), que é super divertido. Acho que fala mesmo com essa galera jovem. Estamos esperando mais de 50 mil jovens passando pelo Tudum, experimentando e experienciando nossas séries de uma forma muito real nesse universo que está criado no Ibirapuera”, disse a diretora.

“Haverá conversas inspiracionais para esse público jovem”, ainda disse Maria Angela sobre palestras que também vão compôr o evento. “Acho que isso que vai ser bacana no evento. A gente tem essa responsabilidade de trazer essas conversas, trazer pra perto, e mostrar essa diversidade de olhares”.