Disney+ (Fonte: Reprodução)
Disney+ (Fonte: Reprodução)

O que define um Original Disney+? Love, Victor, série spin-off de Com Amor, Simon, e High Fidelity, com Zoë Kravitz, passando da nascente plataforma de streaming para o serviço irmão mais velho, Hulu, e Lizzie McGuire dando um passo para trás e tentando se adequar ao conteúdo familiar (mesmo que a atriz Hilary Duff tenha demonstrado vontade de ver seu show mudando de streaming ao invés de roteiro), o que realmente constitui “familiar” é algo a se questionar.

Love, Victor

Os questionamentos começaram há duas semanas, motivado pelas novidades de Love, Victor, que se concentra em um adolescente gay descobrindo a vida em uma nova escola enquanto lida com os desafios em casa. A troca de streamings imediatamente provocou reações sobre se a definição de “familiar” da Disney excluía as histórias LGBTQ.

“Acho que eles têm preocupações sobre como apresentar histórias e temas LGBTQ”, disse um dos principais agentes que trabalha frequentemente com o serviço, segundo a Variety, que não revelou sua identidade. “Certamente, na era moderna, os valores voltados para a família precisam incluir espaço para personagens LGBTQ, e obviamente a sexualidade faz parte dessa exploração”.

Mas como era de se esperar, aqueles que estão envolvidos com a situação rapidamente rejeitam a ideia de que o romance de um adolescente gay teve algo a ver com a mudança. Becky Albertalli, autora do livro no qual o filme Com Amor, Simon foi baseado, twittou dizendo que “a Disney sabia o que era quando o compraram”, referindo-se aos direitos da obra, e pediu aos espectadores que “dessem à Disney o benefício da dúvida”. Confira abaixo a publicação original:

Ainda segundo a Variety, uma fonte revelou que, na verdade, a questão é que a série pareceu uma boa opção para o streaming quando sua premissa foi lançada inicialmente. Mas na fase de desenvolvimento, o enredo logo chegou ao território adulto, trazendo o uso de álcool entre menores, problemas conjugais e exploração sexual.

Representatividade LGBTQ existe na Disney?

Notavelmente, o Disney+ não deixou de incluir o conteúdo LGBTQ em sua plataforma, inclusive em suas produções originais. Em um episódio de High School Musical: The Musical: The Series, série original do streaming, um garoto adolescente, Carlos, convida outro, Seb, para o baile, onde eles compartilham uma dança.

Em outro original, The Hero Project, da Marvel, um episódio se concentra em uma jovem ativista trans, Rebekah, que defende os direitos de trans e inspira outros jovens trans em todo o país.

Além disso, há histórias de antes do streaming, como um episódio de 2019 da 3ª temporada de Andi Mack, do Disney Channel, em que o aluno do ensino médio Cyrus revela ser gay para seu amigo Jonah.

Vale lembrar que no remake live-action de 2017 do longa-metragem de animação A Bela e a Fera, considerado um clássico da Disney, chegou a ser proibido em alguns países quando o ator Josh Gad, intérprete de LeFou, revelou que sua personagem nutria uma paixão por Gaston, vilão do filme vivido por Luke Evans.

A Variety ainda revela que fontes externas à empresa enfatizaram que os executivos por trás da programação Disney+ são progressivos. Contudo, eles precisam estar conscientes da marca Disney que, em geral, é bastante leve e, principalmente, assexuada.

“Eles estão sendo o mais ousados possível”, disse um especialista do setor para o site. “Acho que os executivos têm fome de ser progressivos na medida em que são permitidos”.

Disney, Pixar, Marvel, Lucasfilm, NatGeo e, agora, Fox!

Várias fontes disseram que o Disney+ ainda está aprimorando os parâmetros das séries originais, principalmente porque o streaming abriga um conjunto de propriedades cobiçadas, mas muito variadas: Lucasfilm, Marvel, Pixar, National Geographic e, é claro, os produtos do próprio estúdios Disney, além dos títulos da recém-comprada 20th Century Fox. Eles são frequentemente apresentados como complementares; parte do pacote holístico “familiar”. A programação está listada por estúdios na plataforma (exceto a Fox).

A combinação de tantas marcas em um streaming significa que um grande número de programas e filmes está disponível para o público. Também significa que 30 temporadas de Os Simpsons agora compartilham o mesmo lar digital que Doutora Brinquedos, da Disney Junior. Algo no mínimo inusitado e aparentemente impossível para quem considerasse a possibilidade há 2 anos.

Quando se trata de criar uma nova programação para o streaming, houve debate interno sobre exatamente como é uma série Disney+. E aparentemente os executivos envolvidos no streaming têm autoridade limitada sobre os processos criativos da Pixar, Lucasfilm e Marvel:

“O filtro de ‘O que é um programa Disney?’ era muito, muito difícil de aceitar para todos os diferentes chefes dos feudos do império Disney”, disse a fonte da Variety. A Disney se recusou a comentar oficialmente. Fontes dizem que seus originais da marca Disney na plataforma pretendem ser uma versão “elevada” de seus programas do Disney Channel para crianças.

Mas ainda não está claro até que ponto os criadores de séries podem avançar no desenvolvimento de originais para a parte do streaming destinada para a marca principal da Disney, que não apresenta um arsenal mandaloriano ou vilões tentando eliminar metade da vida do universo, mas sim Glee: Em Busca da Fama, no qual adolescentes do ensino médio se mostram otimistas sobre o futuro. O que nos leva para…

Lizzie McGuire

A repercussão da mudança de Love, Victor se tornou maior quando Hilary Duff ofereceu comentários pontuais sobre a mudança de sua série revival para Hulu. A atriz foi ao stories de seu Instagram publicar uma manchete sobre as razões da mudança de plataforma, na qual ela circulou as palavras “familiar“.

A publicação da atriz aconteceu mais ou menos um mês depois de Terri Minsky, criadora de Andi Mack e showrunner do revival protagonizado por Duff, foi demitida após dois episódios do show já terem sido produzidos. Agora, a série está agora em re-desenvolvimento, com o Disney+ tentando atingir o que acredita ser o tom certo para a plataforma. Contudo, Duff já se expressou, também pelo Instagram, que a série fosse movida para o Hulu:

“Eu prestaria um desserviço a todos limitando a realidade da jornada de uma pessoa de 30 anos para viver sob o teto de uma classificação de PG. É importante para mim que, assim como suas experiências como uma vida de pré-adolescente/adolescente eram autênticas, seus próximos capítulos sejam igualmente reais e relacionáveis. Seria um sonho se a Disney nos deixasse mudar o show para o Hulu, se eles estivessem interessados, e eu pudesse dar vida a essa personagem amada novamente”.

High Fidelity

High Fidelity, assim como Love, Victor, foi inicialmente concebido como uma série mais leve para o Disney+. Mas trazer Zoë Kravitz como protagonista e produtora executiva levou a série a um lugar mais sombrio e decididamente não-Disney Plus. Kravitz chamou Sex and the City de uma grande influência e disse que estava “muito envolvida em escrever, lançar, editar, cenografar, tudo” em seu novo show.

“Eu sempre fui atraída pelos tipos de histórias que giram em torno de pessoas presas em um lugar e pelas coisas de que elas falam, porque parecia o que eu faço com meus amigos”, disse Kravitz à Variety. “Você fica sentado, fuma maconha, fala sobre filmes, discute sobre personagens, atores e música. Essa é uma das minhas coisas favoritas a fazer”.

O tom que o Disney+ procura é definitivamente mais The Mary Tyler Moore Show do que Sex in the City. E drogas e álcool são um grande problema para seus originais. No Hulu, isso não é uma preocupação. Grande parte de High Fidelity acontece em um bar, onde suas personagens de 20 e 30 e poucos anos bebem de forma aberta e frequente. Isso está mais de acordo com a vida real, na visão de Kravitz.

“Fazer o programa parecer autêntico foi a coisa mais importante para mim. E isso exige que eu tenha minhas mãos em tudo. Porque tudo contribui para a aparência, a sensação e a autenticidade do programa”, disse ela. “Esse programa pode ter me dado alguns cabelos grisalhos. Mas acho que valeu a pena”.