Dark (Fonte: Reprodução)
Dark (Fonte: Reprodução)

Certamente, quando paramos para pensar sobre Dark, parece não haver motivos para acreditar que ela deveria ter funcionado tão bem quanto acabou acontecendo. Ela foi a primeira série original alemã da Netflix e, à primeira vista, parecia uma aposta. Uma série europeia que aborda física quântica, a viagem no tempo e seus paradoxos parece um pouco fora do eixo de um público convencional apaixonado pela americaníssima Stranger Things, certo?

Mas, em parte graças ao sucesso da estadunidense Stranger Things, a qual Dark foi erroneamente comparada desde o seu início, a série alemã foi um sucesso. Muitos resolveram apostar em ver o que essa Stranger Things adulta tinha para oferecer, e aqueles que não fugiram do ritmo mais lento do programa não devem conseguir nem imaginar o que faria alguém desistir de assisti-la.

A 3ª e última temporada, que estreou na Netflix neste sábado (27), parecia igualmente impossível. Afinal, se o primeiro season finale, que mostrou Jonas chegando ao futuro, já trouxe um misto de receio e empolgação, a revelação do fim da 2ª temporada certamente elevou esse nível e, talvez pela primeira vez com séries que dominaram o mundo com suas teorias (alô, Lost e Game of Thrones!), um final atende à expectativa da promessa de um verdadeiro épico.

Nas duas primeiras temporadas, foi revelado que a protagonista da série e seu interesse amoroso, respectivamente Jonas e Martha, são tecnicamente tia e sobrinho por meio das desventuras da viagem no tempo. Outra personagem é sua própria avó e, mãe e filha são, respectivamente, filha e mãe, e por aí vamos. No final da 2ª temporada, ainda nos é revelado todo um mundo paralelo. Assim como para as personagens principais, parecia impossível desatar o nó.

3ª temporada

Dar vida para a 3ª temporada de Dark certamente foi ainda mais desafiador do que fazer a sua já trabalhosa 2ª temporada. Embora a “penúltima cena de montagem de personagens com uma música triste”, marca registrada da série, seja útil para recapitular eventos em cada episódio, você pode se sentir compelido a pegar uma caneta e papel apenas para acompanhar o que está acontecendo. Isso pode parecer irritante, mas é a progressão natural de como a série se deu, e os fãs provavelmente verão isso como parte do seu charme.

Dark começa exatamente de onde a 2ª temporada parou, com uma Martha alternativa e um confuso Jonas (representando todo espectador) viajando para esse mundo alternativo, que é explorado em profundidade. É um mundo paralelo estereotipado: tudo mudou, mas tudo permanece o mesmo. E não é um movimento que descarateriza a série. De fato, esse universo espelhado foi prenunciado desde o início nas misteriosas aberturas simétricas do programa.

O show não se limita apenas ao seu universo espelhado nessa temporada, o que muitos sucessos de público fariam caso estivessem nesse hype. Ao invés disso, a série presa sua qualidade, entendendo que essa seria somente uma ferramenta para apresentar o que precisa para nos dar o melhor final possível. Isso poderia ser um tiro no próprio pé. Oito episódios para explicar os mistérios da viagem no tempo e apresentar um mundo espelhado em uma trama emaranhada como a de Dark não é fácil.

Dark

Felizmente, a série faz isso com maestria. Mais do que isso, impressiona ao adicionar ainda mais uma camada para o seu enredo, sem precisar de um Deus Ex-Machina ou coisa parecida. Há de se dizer que o episódio final teve um momento, talvez, piegas (alô, Interestelar). No entanto, certas coisas são realmente difíceis de se representar e nada deve estragar o que a série prepara para os seus minutos finais.

De forma inteligente, Dark consegue mexer com suas emoções de forma que você não consegue dizer ou não se está preso ao mesmo nó para sempre, se questionando a cada minuto da série até o seu fim, sobre tudo e todos. Não só isso, consegue te emocionar no se fecho, fazendo com que você se apegue à personagens que você mal consegue lembrar a árvore genealógica, que lhe é mostrada a todo instante.

É difícil falar sobre um aspecto do Dark sem falar sobre tudo. Afinal, o início é o fim, e o fim é o início, não é mesmo? Mas o final é aquilo que toda série de sucesso penou para encontrar e poucas conseguiram: satisfatório. Todo o trabalho de amarrar pontas soltas leva a um final que parece definitivo e completo, mantendo-se alinhado com o tom misterioso que os fãs esperam.

Por si só, a 3ª temporada de Dark parece muito complexa, confusa e com um ritmo estranho para ser considerada uma boa temporada, isolada. No entanto, dentro do contexto das duas primeiras temporadas, pode ser uma das melhores temporadas finais da história da televisão, evitando, de alguma forma, todos os obstáculos e armadilhas de séries do passado.