O Mundo Sombrio de Sabrina chega a Netflix com algumas missões para serem cumpridas. A primeira, e mais importante, é conquistar novos fãs para o universo da bruxinha. Nesse ponto, a gigante do streaming deve obter sucesso. Assim, um grande acerto foi colocar a série nas mãos do showrunner Roberto Aguirre-Sacassa.

Aguirre-Sacassa já provou que sabe conquistar o público adolescente com Glee: Em Busca da Fama. Também, provou que sabe escrever adaptações sombrias, em Carrie, a Estranha. Ainda, provou com Riverdale que está apto a mergulhar no universo da Archie Comics. A Netflix não poderia ter escolhido um showrunner melhor, e isso é nítido em O Mundo Sombrio de Sabrina. As escolhas de Aguirre-Scassa para trazer Sabrina para os tempos atuais foram todas muito bem acertadas.

A série é sombria e escura. A fotografia de toda a sua primeira temporada apoia-se nesses conceitos para mostrar um dos trabalhos mais interessantes da Netflix. Dessa forma, o seriado acaba justificando sua classificação indicativa de 16 anos. Não foi por acaso que a gigante do streaming encomendou logo duas temporadas da série. Contudo, há sim um incômodo ou outro, como algumas transições de cena. Entretanto, nada que, de fato, atrapalhe no consumo da série.

O Mundo Sombrio de Sabrina | Kiernan Shipka comenta segunda tempora, que já está sendo filmada

Outro ponto alto da série cabe ao seu elenco. Todavia, antes de uma análise das interpretações individuais, vale o destaque para a variedade étnica dos atores. Em uma época onde a diversidade está em voga, não só a trama da série contribui para o pensamento da diversidade, como a escolha do elenco deixa claro, mesmo sem panfletagem, que não há lugar para o preconceito na indústria. A relação da bruxaria com o feminismo também é bem pontuada, com Sabrina explorando suas discordâncias com os dogmas autoritários do Senhor das Trevas. Já individualmente, não há críticas negativas a se fazer na representação de seus personagens.

Kiernan Shipka, protagonista da série, se mostra uma ótima escolha. A atriz consegue mostrar muito bem as emoções conflituosas de Sabrina em relação aos dois mundos em que a personagem vive. Shipka consegue trazer tanto uma adolescente determinada, quando necessário, quanto uma garota confusa e amedrontada. Chance Perdomo é outro destaque. O ator interpreta Ambrose, que é uma espécie de substituto ao Salem nessa renovação da mitologia, também consegue fazer muito bem o seu papel.

Lucy Davies e Miranda Otto ficam responsáveis por interpretar as tias de Sabrina, Hilda e Zelda, respectivamente. Davies segura muitas vezes o papel de alívio cômico da série, como já provara fazer muito bem em Mulher-Maravilha, The Office ou Todo Mundo Quase Morto. Já Otto, que ficou marcada por interpretar Eowyn na trilogia de O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, traz uma personagem mais dramática, em uma releitura bastante interessante para Zelda. A personagem passa a ser uma figura ortodoxa dentro de sua religiosidade, dando um contraste eficaz com Hilda, que se mostra mais permissiva com os dogmas das bruxas.

O Mundo Sombrio de Sabrina | Showrunner explica a diferença entre a série da Netflix e Riverdale

Tati Gabrielle também merece menção ao interpretar Prudence. A personagem é algo próximo de uma versão juvenil de Zelda, na questão de ser ortodoxa. Mas sua relação dúbia com Sabrina é um porta forte para a trama. Lachlan Watson, Richard Coyle, Mary Wardle, L. Scott Caldwell, tantos outros nomes do elenco estão bem em seus respectivos papéis, independente de seu tempo de tela. A direção artística da série é realmente, inclusive em sua produção, um espetáculo à parte.

O figurino e a cenografia também são bastante destacáveis. O Mundo Sombrio de Sabrina consegue trazer um clima atemporal pro seu universo. Alguns figurino parecem pertencer ao século XIX, se mesclando com outros que parecem de décadas diferentes do final do século XX. Tudo isso de uma forma que não se mostra dissonante e, pelo contrário, contribuem para a criação do universo. A cenografia também é bastante acertada, dentro dos mesmos moldes. Dessa forma, a série não se prende em uma tentativa de adaptação ao seu tempo no sentido tecnológico, e sim nos moldes de se fazer uma série e conduzir uma trama.

O Mundo Sombrio de Sabrina | Kiernan Shipka comenta o triângulo amoroso da série

A trama é uma renovação, de toda interessante, para a saga da Archie Comics. Diversas adaptações audiovisuais já foram feitas sobre a bruxa adolescente de Greendale. O acerto desta é não começar um mais do mesmo e sim, legitimamente, um reboot de sua mitologia. O roteiro é bem amarrado, baseado na premissa da origem da personagem, que é uma garota entre dois mundos. Sendo assim, a lógica se infiltra em todas as subtramas da série. Um bom exemplo é a proposta de um triângulo amoroso entre Sabrina, seu namorado mortal e um bruxo que ela conhece na escola mística. Ambas as escolas têm seus problemas de discurso, e Sabrina se divide entre estes, tendo que considerar suas prioridades. E assim, a trama vai seguindo seu curso sem se perder.

O final da temporada não deixa, por assim dizer, um gancho. Mas há sim uma mudança drástica que deve alterar a narrativa. Nada mais natural em uma série que tem duas temporadas garantidas. A lógica de “binge-watching”, cada vez mais comum dentro do streaming, também funciona bem. Maratonar a série não é necessariamente tão instintivo como foi na primeira temporada de Stranger Things, mas é uma ideia muito mais palatável de se fazer em O Mundo Sombrio de Sabrina do que em muitas séries da Netflix.