Watchmen (Fonte: Reprodução)
Watchmen (Fonte: Reprodução)

As narrativas da televisão têm o poder de nos ensinar muito, assim como, é claro, desensinar. De conceitos morais simples à filosofias éticas mais complexas, o que geralmente é visto como uma atividade totalmente passiva pode lentamente moldar comportamentos ou, com sorte, ensinar algo.

Assim como a internet e outras dádivas da tecnologia, a televisão pode ser uma excelente ferramenta para expor as pessoas aos mais diversos tópicos, e isso pode ajuda-la em outro uso: preencher informações essenciais não discutidas o suficiente pelo nosso sistema educacional.

Isso foi o que Watchmen fez no ano passado. E agora que estamos vendo protestos em todo o mundo contra o racismo no sistema policial, principalmente nos Estados Unidos, após o assassinato de George Floyd, é necessário reavaliar a maneira como a HBO incluiu um capítulo obscuro da história estadunidense.

Watchmen não abre com Dr. Manhattan, ou mesmo com sua nova protagonista, Angela Abar. A série vai direto para Tulsa em 1921. Essa não é uma data muito significativa para a maioria dos estadunidenses. E o massacre racista mostrado na tela é tão horrível que só poderia ser ficção.

No entanto, não é. O Massacre de Tulsa foi real e forma a semente de grande parte do trauma coletivo visto em Watchmen: injustiça racial e brutalidade policial são temas ao longo da série como um todo.

O Massacre de Tulsa

Também conhecido como Massacre de Black Wall Street, o massacre ocorreu entre 31 de maio e 1º de junho de 1921, no distrito de Greenwood, em Tulsa, que era a comunidade negra mais rica dos EUA. Assim, o local foi apelidado de Black Wall Street (Wall Street Negra). O evento é apontado como o pior ataque de violência racial na história estadunidense. O que apenas destaca ainda mais o ponto que Watchmen levanta sobre essa história sombria estar enterrada e esquecida.

Assim como o programa mostra, supremacistas brancos desceram sobre Greenwood e mataram homens, mulheres e crianças nas ruas, queimando e saqueando lojas e casas, aniquilando o distrito de Black Wall Street. O ataque deixou 10.000 negros sem teto, US$ 1,5 milhão em danos à propriedade na área e perdas de US $ 750 mil em bens pessoais (ou cerca de US$ 32 milhões atualmente).

Além disso, 6.000 negros foram presos ou detidos, enquanto 800 pessoas tiveram que ser internadas no hospital, e entre 100 e 300 foram contados como mortos durante o ataque. E outro fato realmente insidioso sobre é como ele como tem sido encoberto desde então. Boa parte dos espectadores de Watchmen nem desconfiaram que estavam vendo uma dramatização de um evento real.

Foi somente através de um estudo focado que o evento histórico foi mantido na memória e, em 1996 (75 anos depois), o Massacre finalmente recebeu uma investigação formal de um legislador estadual de Oklahoma; um estudo bipartidário que concluiu em um relatório de 2001 que as autoridades da cidade de Tulsa conspiraram com a multidão branca para prejudicar os cidadãos negros.

This Extraordinary Being

Um episódio inteiro de Watchmen, This Extraordinary Being, é dedicado a Angela experimentando as memórias de seu avô, Will, como um policial trabalhando em Nova York em 1938. Através de seus olhos, Angela enfrenta racismo brutal, incluindo uma tentativa de linchamento nas mãos de um grupo secreto de supremacistas brancos chamado Cyclops, que conta a polícia entre seus membros.

Esse trauma leva Will a se tornar o primeiro super-herói do universo de Watchmen, um vigilante chamado Justiça Encapuzada, transformando o capuz e o laço usado contra ele em seu disfarce, com Damon Lindelof brilhantemente mexendo no cânone ao mesmo tempo que o deixa intacto e ainda mais profundo.

Embora a injustiça racial seja um elemento da trama em Watchmen, não é de forma alguma fictícia. A organização supremacista branca Cyclops é organizada e inclui várias gerações de policiais e políticos. Eles são a principal força antagonista do programa, usando a tecnologia fictícia para incitar uma guerra racial, mas não é um exagero dos preconceitos que facilmente é possível se observar no sistema policial, seja nos Estados Unidos ou no Brasil.

Watchmen é alegórica, mas não fantástico.

A relevância de Watchmen

Quando Watchmen foi ao ar, recebeu críticas por retratar os policiais como seus heróis, em oposição à óbvia vilania da Seventh Kavalry, grupo inspirado pelo diário de Rorschach. Mas essa foi somente uma ferramenta de roteiro, contribuindo para a confiança inerente das pessoas à polícia antes de revelar lentamente a corrupção dentro do sistema.

No contexto de hoje, essa confiança inerente é sobrecarregada, tornando-a uma experiência de visualização totalmente nova. Os protagonistas, no entanto, ainda são policiais, e essas críticas podem ter algum peso na maneira como as percebemos.

O trauma coletivo é outro tema em Watchmen. De Angela, testemunhando a vida de seu avô, a Lady Trieu, infundindo as memórias de sua mãe em sua filha, a transmissão geracional da história e da injustiça aparece repetidamente. Como exatamente esse compartilhamento da história deve se refletir na vida real se tantas histórias como o Massacre de Tulsa não são contadas?

Watchmen da HBO, assim como a aclamada graphic novel de Alan Morre e Dave Gibbons, nunca deve realmente ser considerada escapismo. A série manteve a relevância que os quadrinhos tiveram na década de 80, fazendo inclusive com que a história desse universo subitamente assumisse um nível totalmente novo de relevância; o racismo nunca desapareceu, mas há uma nova quantidade de atenção sendo trazida a ele no momento.

Uma série de televisão pode não ser a coisa mais urgente que precisa de nossa atenção, mas é uma história bem trabalhada, envolvida em um mundo apenas ligeiramente diferente do nosso, que poderia fornecer inspiração, se não educação.