Super Choque, série animada da DC que marcou época, comemora 20 anos; entenda sua importância (Fonte: Reprodução)
Super Choque, série animada da DC que marcou época, comemora 20 anos; entenda sua importância (Fonte: Reprodução)

Hoje em dia, é fácil nos encontrarmos em debates do quão “político” é “muito político” no mundo do entretenimento. Especialmente quando fãs da Marvel Comics e da DC Comics estão defendendo a qualidade de seus filmes, séries e quadrinhos. Alguns apontam que histórias de super-heróis, assim como outras histórias de maior apelo para o público infantil, podem se tornar propaganda, influenciando crianças com algum pensamento ideológico. O maior problema disso é que esse pensamento tende a subestimar a capacidade das crianças, que provaram repetidamente que conseguem lidar com comentários mais relevantes em seus desenhos animados. Possivelmente, a maior prova disso seja Super Choque.

Se você for jovem (ou velho) demais para ter assistido, Super Choque foi uma série animada de 2000, que se passava no Universo Animado DC. A série era protagonizada por Virgil Hawkins, um estudante afro-americano de uma cidade ficcional de Dakota, que ganha superpoderes, lhe deixando capaz de controlar eletricidade. Criado por Dwayne McDuffie, Denys Cowan, Michael Davis e Derek Dingle, Virgil surgiu em 1993 em Static #1, publicada pela Milestone Comics, uma produtora independente de HQs sobre super-heróis de propriedade da DC Comics, que priorizava dar mais exposição para minorias.

A Milestone Media fechou sua divisão de histórias em quadrinhos em 1997. Mas Virgil foi salvo pela Kids’WB. Super Choque estreou no canal 3 anos depois, com McDuffie na roteirização e Cowan produzindo. A série teve 52 episódios, ficando no ar por 4 anos. A série animada fez com que a HQ da personagem retornasse com Static Shock: Rebirth of the Cool. Diferente da animação, que trazia crossovers com Batman: A Série Animada, Batman do Futuro e Liga da Justiça: A Série Animada, Virgil ainda pertencia ao universo da Milestone, conhecido como o Dakotaverse. Mas o herói foi incorporado ao universo regular da DC com a saga Crise Final.

Adaptação sem perder o tom

Super Choque nas HQs (Fonte: Reprodução)
Super Choque nas HQs (Fonte: Reprodução)

Uma das coisas que diferenciava Super Choque das outras séries animadas do início dos anos 2000 era sua postura em relação à comentários sociais. As HQs tinham como alvo um público um pouco mais velho. Então, o show teve que deixar as coisas mais adequadas para as crianças. Mas não tanto. A série frequentemente abordava questões como racismo, violência, armas de fogo, saúde mental e falta de moradia, entre outros temas.

De fato, outras animações voltadas para crianças acabavam por abordar essas questões. Afinal, DC e Marvel miraram em deixar seus quadrinhos verossímeis por décadas. Um bom exemplo é o episódio Troq, de Os Jovens Titãs, que abordou racismo pela perspectiva de Estelar. No entanto, a política e os comentários sobre a cultura contemporânea eram muito mais integrais ao DNA de Super Choque do que de qualquer outra série infantil. Não era apenas um show com política; era um show político, que abordava os tópicos mencionados semana após semana.

O primeiro episódio da série animada já mostrava seu tom ao colocar o jovem Virgil de cara nos desafios do mundo atual, com o estudante sendo convocado para participar de uma briga entre gangues, para qual lhe é oferecida uma arma de fogo. O ódio de Virgil por armas não começou por aqui; sua mãe foi uma paramédica que foi morta com um tiro nos tumultos conhecidos como Dakota Riots, acontecidos anos antes do show.

Abordando problemas sociais

Cena de Sons of The Fathers, episódio marcante de Super Choque (Fonte: Reprodução)
Cena de Sons of the Fathers, episódio da 1ª temporada de Super Choque (Fonte: Reprodução)

Talvez um dos mais famosos episódios seja Sons of the Fathers, o 8º episódio da 1ª temporada. Nesse episódio, Virgil é convidado para passar a noite na casa de Richie Foley, seu melhor amigo e futuro sidekick. Ao chegar lá, Virgil descobre que o pai de seu melhor amigo é racista.

Richie acaba explodindo com seu pai e fugindo de casa ao ver a maneira como ele trata Virgil. O menino retorna para casa após os esforço de seu amigo, de Robert Hawkins, pai de Virgil e do próprio Sr. Foley, que resolve trabalhar em seus preconceitos.

Outros exemplos no show podem ser encontrados em Frozen Out, 5º episódio da 2ª temporada, que fala de negligência paternal, doenças mentais e a realidade dos desabrigado nos Estados Unidos; o season finale da temporada, Jimmy, que abordou violência armada, bullying e a síndrome do sobrevivente; e o 14º episódio da 3ª temporada, Flashback, no qual Virgil viaja no tempo para o dia em que sua mãe foi assassinada.

Sucesso entre os jovens

Super Choque (Fonte: Reprodução)
Super Choque (Fonte: Reprodução)

Mesmo sendo “muito política”, a série animada não foi rejeitada pela audiência mais jovem. Ao contrário disso, foi aclamada pelo público. Mesmo sendo cancelada na 4ª temporada por motivos relacionados ao merchandising, a animação sempre obteve boas críticas e uma audiência consistente nos Estados Unidos.

Seu números chegaram a deixar a série atrás apenas do fenômeno cultural Pokémon, considerada a maior franquia de entretenimento do mundo. Muitos fãs do programa agradecem ao show por trazer lições que os deixaram mais conscientes do mundo ao seu redor.

Em outras palavras, não é como se Super Choque tenha sido um programa obscuro, lembrado nostalgicamente apenas por poucas pessoas. De certo, a série marcou época, fazendo do herói uma das personagens mais recorrentemente lembradas pelos fãs mais novos da DC.

Legado

Super Choque em Justiça Jovem (Fonte: Reprodução)

Por isso, os 20 anos de Super Choque devem ser celebrados. Afinal, os jovens não vivem em uma bolha separada do resto do mundo. Longe disso, problemas sociais no mundo afetam diretamente um número incalculável de crianças.

A animação criou mais do que uma série sobre super-heróis e super-vilões; mas um programa sobre a vida e suas lutas. Certamente, seu sucesso mostra não só que uma audiência mais jovem consegue compreender os comentários políticos que consomem; mas que histórias como essa são necessárias.