Arya Stark e o Rei da Noite em Game of Thrones (Fonte: Reprodução)
Arya Stark e o Rei da Noite em Game of Thrones (Fonte: Reprodução)

Game of Thrones é uma franquia que se popularizou pelos mais diversos motivos. Talvez o ponto mais celebrado pelos fãs seja sua constante quebra de expectativa. Enquanto na maioria das obras fantásticas exista um enredo baseado em acompanhar um protagonista guiado pela jornada clássica do herói, As Crônicas de Gelo e Fogo conseguiu subverter as regras do monomito, como analisadas por Joseph Campbell, com a maioria de suas personagens. Seu criador, George RR Martin, ainda recebe cartas de ódio dos fãs por isso.

E assim é feito com a maioria porque muitos são as potenciais protagonistas da trama. O exemplo provavelmente mais óbvio fica por conta de Ned Stark. O início da história propõe Eddard como uma personagem com todos os valores romanticamente enaltecidos na sociedade de Westeros: O Lorde de Winterfell e Protetor do Norte é honrado, justo, nobre, fiel e responsável. Mesmo sua suposta única falha de caráter, uma traição prévia ao pontapé inicial da história, que é a chegada do Rei Robert Baratheon em Winterfell, é considerada pouca pelos demais, já que a fidelidade não é algo do qual os homens de Westeros podem se gabar.

O arquétipo está todo construído e até o seu chamado acontece. Nesse caso, de fato um chamado, quando o Rei o convoca para atuar como Mão. Então, somos convidados a embarcar em um thriller político, no qual somos levados a acreditar que os Lannisters são os vilões e, os Starks, os mocinhos. A presença de Tyrion na Casa Lannister já é um indício de que nem tudo é tão simples assim. Contudo, Cersei e Ned se encaixam em demasiado nos seus respectivos esteriótipos para que o público acredite que o final da história fuja dos moldes.

A morte que virou o jogo dos tronos

Ned Stark era considerado o protagonista tanto nos livros quanto na série. Isso não é algo que o enredo te diz de fato. Ao mesmo tempo em que a personagem segue os passos que estamos acostumados a ver o mocinho seguir nas tantas narrativas que consumimos, o livro nos propõe, assim com a série, tantas outras narrativas que fogem da trama principal. Se alguém puder argumentar que uma delas é a de Jon Snow, outro poderá dizer que existe uma ligação óbvia entre as personagens.

Entretanto, o elo entre Ned e Daenerys Targaryen é demasiadamente sutil para se especular que o papel de Dany esteja ligado ao pai Stark. Portanto, as história podem ser consideradas quase que paralelas. Vale lembrar que o primeiro livro é o mais fielmente representado pela HBO. Ambos terminam de forma determinante para entender como Game of Thrones trabalha sua trama.

Enquanto acompanhamos Ned Stark desenvolver um trama praticamente policial, na qual ele tenta desvendar o que levou ao que ele acredita ser o assassinato de Jon Arryn, Dany vai alçando sua posição de Khaleesi, ou seja, esposa do Khal. Como Ned se encontra no centro da trama que envolve mais personagens, deixamos nos levar a crer que sua história seria a principal. Mas a personagem morre. E isso acontece em um panorama onde tudo leva a crer que ele sofrerá uma punição misericordiosa. Eis a grande primeira quebra de expectativa de Game of Thrones.

Enquanto isso, em Essos…

Nesse meio tempo, Daenerys enfrenta também seu próprio enredo. A garota tenta mudar os cruéis costumes entre os Dothraki. Isso resulta na morte de Khal Drogo, seu marido. É então que, ao mesmo tempo em que o dito protagonista morre, Dany ascende. A moça atinge o inimaginável ao conseguir com chocar os ovos de dragão que possuía. Assim, Daenerys deu força à escassa magia daquele mundo.

Contudo, a ascensão da última herdeira Targaryen somente acontece em Essos. Desafios vão se mostrando e sendo vencidos pela Mãe dos Dragões, que fica cada vez mais perto de ter força o suficiente para invadir Westeros e retomar a dinastia de sua família. Mas é interessante notar que seu próprio arco sofre uma quebra de expectativa. A primeira profecia a não se cumprir na franquia é a do garanhão que monta o mundo. Este deveria ser o filho de Dany e Drogo. No entanto, nunca foi.

O novo herói

O favoritismo da família Stark, que se mostra alheia ao sujo clima político de Westeros, acaba levando o público a acreditar que o manto do protagonismo passaria de Ned para seu filho, Robb. Robb Stark é coroado o Rei do Norte em uma disputa Joffrey Baratheon, Stannis Baratheon, Renly Baratheon e Balon Greyjoy cada um reclamam uma coroa.

Decerto, os fãs da série ainda não esqueceram o chamado Casamento Vermelho. Quando Ned é executado, muitos ficam sem saber por onde a trama irá seguir. Quando Robb é coroado o Rei do Norte e jura vingança aos Lannister, o rumo é retomado. Mas a morte de Robb, culmina também na morte de Catelyn. Com Arya sumida, Sansa refém, Bran e Rickon ainda muito crianças e o bastardo Jon Snow preso à Patrulha da Noite, o público se depara com o fim da Casa Stark. Essa é mais uma prova de que as promessas de Game of Thrones não devem ser levadas como um destino certo.

Mais quebras de expectativa

Tyrion Lannister parecia uma personagem intocável. Seu julgamento demorado e sua possível salvação via Oberyn Martell só serve para novamente frustar o público. O mesmo acontece com as mais diferentes personagens ao longo da saga. Cada vez que uma música ou profecia aparece como um possível desfecho, seria mais inteligente por parte do público simplesmente desconsiderá-la.

O mesmo vale de forma contrária. O desacreditado Samwell Tarly é o primeiro em gerações que mata um White Walker. A guerra entre a Patrulha da Noite e os Selvangens liderados por Mance Rayder, não é concretizada após a chegada de Stannis. Então, mesmo após tudo isso, a série (diferente dos livros) chega na chamada Grande Guerra.

A Batalha de Winterfell

O terceiro episódio da oitava e última temporada veio como o palco da maior expectativa criada pela série até então. Não só o grande duelo entre a luz e a escuridão, o verão e o inverno, o fogo e o gelo, seria explorado. Mas a profecia do retorno de Azor Ahai, ou do Príncipe Prometido, dependendo da referência, deveria se cumprir. A série confirmou a existência das profecias em seu universo. No entanto, não bateu tanto nessa tecla. Mesmo assim, novamente os fãs de Game of Thrones deixaram se levar.

O Rei da Noite e seu exército de mortos não se tornarem a maior ameaça da série é somente uma dentre todas as outras quebras de expectativas que programa traz em seu enredo. A não existência de Azor Ahai é somente outra. Em um dos episódios mais memoráveis da televisão, Game of Thrones provou que está viva e respeita o universo em que vive.

A série sempre girou em torno do trono e das frustrações de seus arcos. A Batalha de Winterfell que culmina em uma nada fácil vitória sobre o Rei da Noite só serve para comprovar isso. A expectativa era de um grande número de mortos entre as personagens principais: o que não aconteceu. A expectativa era a ascensão de um herói da luz: o que não aconteceu. Pelo contrário, um roteiro bem amarrado mostrou uma agente da escuridão dar o golpe que eliminou uma ameaça que, provocando consumir Westeros, não passou de Winterfell.

Arya Stark foi uma escolha certeira, já que a moça vem se preparando para o momento. Ao mesmo tempo que poucos foram aqueles que desconfiaram de seu destino. Agora, com três episódios para acabar o seriado da HBO, é torcer para o Valonqar também quebrar nossa expectativa. E o programa manter seus preceitos.