Regina King como Angela Abar, a Sister Night, em Watchmen (Fonte: Reprodução)
Regina King como Angela Abar, a Sister Night, em Watchmen (Fonte: Reprodução)

Watchmen encontrou uma casa na HBO para continuar uma história que muitos não gostariam de ver continuada. Assim, Damon Lindelof e sua equipe tinham que ter um cuidado especial com esse show. E se o filme de Zack Snyder, que adaptou a história original de Alan Moore e Dave Gibbons, pode ser considerado uma boa atualização da trama, o programa pode mostrar que atualizar uma obra é muito mais do que tornar sua trama alinhada com o momento que vivemos.

A rede premium de televisão se propôs a fazer uma continuação da graphic-novel que mudou o rumo das histórias em quadrinhos em 1986. Watchmen foi a primeira HQ que ganhou um prêmio literário no qual competia com outras mídias, como romances. Sendo assim, parecia um movimento em que não se mexeria de forma nenhuma no cânone amado pelos fãs. No entanto, o que vimos foi uma das mais ousadas e interessantes séries de televisão dessa década.

A audiência de Watchmen não foi a melhor para uma série novata em 2019 à toa: o show definitivamente é o melhor que estreou nesse ano. Infelizmente, quem não leu a HQ não deve saborear o programa como aqueles que leram. O show é uma ode ao trabalho desenvolvido por Moore e Gibbons nos anos 80 e, mais do que homenageá-lo, consegue captar sua essência e desenvolvê-la para a atualidade.

Ao trocar o a bomba nuclear pela supremacia branca, a série consegue atualizar um dos intuitos da HQ com perfeição. Da mesma forma, trabalha sua narrativa de forma muito parecida com a graphic-novel. De certa forma, pode-se entender a série como algo próximo do que O Despertar da Força fez com Star Wars: um sequência que funciona de certa forma como um soft-reboot. Diferente do filme da Lucasfilm, no entanto, a série consegue trazer uma identidade própria muito forte, mesmo baseando-se em acontecimentos do passado. Mais do que isso traz retcons que conseguem dar um novo olhar para o pano de fundo dos quadrinhos, aprofundando ainda mais a discussão a obra original sem em nenhum momento alterar seu cânone.

O roteiro notável, não só por sua força própria, que criou um show que pode ser seguido sem leitura prévia (embora essa seja estritamente necessária para que o passado não fique tão confuso, mesmo com as explicações necessárias sendo dadas ao longo da trama), só pode funcionar também por uma excelente produção, como é praxe na HBO, e pelo seu elenco, que brilhou individualmente em cada momento em que lhe foi pedido, dividindo o protagonismo pelos episódios, da mesma forma que Lindelof havia feito anteriormente em Lost.

Mesmo assim, Regina King é a protagonista do show. E consegue muito bem sustentar essa posição. Seu trabalho só pode ser completamente apreciado com a série assistida uma segunda vez. E o mesmo vale para praticamente todas as personagens. Jean Smart, Jeremy Irons e Yahya Abdul-Mateen II também trazem excelente performances que somente engrandecem com as revelações finais da série.

Talvez os fãs mais conservadores se oponham, assim como Moore, a consumir a obra ou, mesmo consumindo, encontrem algumas incoerências para se discutir acerca de como agem algumas personagens, como Dr. Manhattan. No entanto, nada do que foi feito prejudica o material original ou deixa de soar como algo que o próprio Moore poderia trazer à vida.

A comparação será inevitável, no fim das contas, pois não só o programa se baseia naquele universo como ele precisa das HQs como material complementar para aqueles que quiserem sua plenitude. Para os demais, o show parecerá confuso em certas áreas; mas jamais ruim ou ralo.